Espaço Sustentabilidade
ESGJulho de 2026

A nova régua da sustentabilidade para empresas

Durante quinze anos, sustentabilidade foi uma conversa sobre reputação. Agora ela entrou no relatório financeiro, no contrato de fornecimento e na proposta de crédito — e as regras de quem decide mudaram junto.

Existe uma diferença prática entre um tema que é bom ter e um tema que é obrigatório. O primeiro vive no orçamento de marketing e desaparece quando o ano aperta. O segundo vive no orçamento da diretoria financeira e tem prazo. A sustentabilidade corporativa cruzou essa fronteira, e a maioria das empresas ainda opera como se estivesse do lado antigo.

A mudança não veio de uma lei única, nem de um evento. Veio de três frentes que se fecharam ao mesmo tempo sobre a mesma empresa: o que ela precisa relatar, o que os clientes exigem para contratar e o que os bancos consideram para emprestar. Quando as três apertam juntas, o discurso não sustenta mais.

Primeira frente: o relato virou contabilidade

O deslocamento mais profundo é também o menos comentado. Informação de sustentabilidade deixou de ser uma peça editorial, produzida pela comunicação com liberdade de narrativa, e passou a ser uma informação contábil — com norma, rastro de evidência e responsabilidade de quem assina.

As normas do ISSB, o conselho internacional de padrões de sustentabilidade, organizaram esse campo em duas peças: uma geral, sobre riscos e oportunidades de sustentabilidade que afetam o valor da empresa, e outra específica sobre clima. O Brasil foi o primeiro país a incorporar esse padrão à sua regulação, pela Resolução CVM 193, de 2023, que previa adoção voluntária a partir de 2024 e obrigatória para companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 2026.

Em maio de 2026, porém, a Resolução CVM 244 revogou essa obrigatoriedade. O relato passou a funcionar no modelo pratique ou explique: a companhia pode não publicar, mas a partir de 2027 precisa justificar a omissão ao mercado. O rigor técnico continua de pé para quem adota — mesmo padrão, mesma asseguração por auditor independente — e há regra de permanência: quem começa se compromete a manter o relato por três exercícios consecutivos, para evitar divulgação oportunista.

É importante ler essa mudança pelo que ela é. Saiu a obrigação automática; não saiu a cobrança. Um silêncio que precisa ser explicado publicamente ao mercado não é o mesmo que ausência de exigência — e a pressão que realmente alcança a empresa média nunca veio dessa norma.

Para quem não é companhia aberta, a leitura errada é concluir que nada disso a alcança — e a flexibilização de 2026 reforçou essa ilusão. A leitura certa é entender que a exigência desce pela cadeia. Uma empresa obrigada a relatar emissões da própria operação precisa, no ano seguinte, das emissões de quem fornece para ela. É assim que uma norma escrita para as grandes chega a uma indústria de médio porte no interior de São Paulo, sem que nenhuma lei específica tenha sido escrita para ela.

A pergunta deixou de ser “o que a sua empresa comunica sobre sustentabilidade” e passou a ser “o que a sua empresa consegue comprovar”.

Segunda frente: o cliente virou auditor

A segunda pressão é comercial e chega antes da regulatória. Ela vem no formulário de homologação de fornecedor, no questionário anexo ao edital, na cláusula do contrato de fornecimento que pede política anticorrupção, código de conduta e inventário de emissões.

É aqui que a maior parte das empresas descobre o problema, e descobre tarde: no meio de uma negociação, com prazo de resposta de duas semanas e nada pronto. O custo dessa descoberta não é o custo de montar um programa. É o custo do negócio perdido enquanto se monta.

No setor público, a régua tem endereço. A lei de licitações vigente incorporou o desenvolvimento sustentável entre os princípios da contratação e admite critérios ambientais na definição do objeto e no julgamento das propostas. Isso significa que sustentabilidade pode ser critério de desempate, requisito de habilitação ou obrigação contratual — a depender de como o edital foi escrito. Quem não tem política, não tem evidência e não tem indicador simplesmente não pontua.

Terceira frente: o crédito ficou condicional

A terceira frente é financeira e opera de forma mais silenciosa. Instituições financeiras passaram a incorporar risco socioambiental na análise de crédito e na precificação. Operações estruturadas com metas de sustentabilidade atreladas ao custo da dívida deixaram de ser exóticas.

O efeito prático para uma empresa média é indireto, mas real: uma pendência ambiental, um passivo trabalhista mal resolvido ou a ausência de governança documentada aparecem na análise. Não como recusa formal, quase nunca. Aparecem como uma taxa um pouco pior, uma garantia adicional, um limite menor. Ninguém escreve na carta que o motivo foi governança.

O que muda na prática dentro da empresa

Quando essas três frentes se juntam, três coisas mudam na rotina de quem administra:

A informação precisa ter origem

Um número de sustentabilidade agora carrega a mesma exigência de um número contábil: fonte identificável, método declarado, série histórica comparável e alguém responsável por ele. Estimativa feita na véspera para preencher um formulário deixou de servir — e passou a criar risco, porque declaração falsa em documento contratual tem consequência.

O tema saiu da comunicação e entrou na governança

Enquanto sustentabilidade foi assunto de reputação, o dono natural era o marketing. Quando ela vira critério de contrato, de relato e de crédito, o dono passa a ser a governança: quem aprova política, quem responde por conformidade, quem assina. Isso não é detalhe organizacional. Muda quem participa da reunião e quem tem autoridade para decidir.

O silêncio também custa

O receio de errar levou muitas empresas ao caminho oposto do discurso exagerado: parar de comunicar. O problema é que a ausência de informação também é lida — por cliente, por banco e por candidato a uma vaga. Num ambiente em que a comparação é fácil, não dizer nada não é neutro.

Por onde começar

Três movimentos resolvem a maior parte do atraso, e nenhum deles exige projeto longo:

1. Descobrir o que já te pedem. Reúna os questionários de fornecedor, editais e contratos dos últimos doze meses e liste o que foi perguntado. Essa lista é o seu escopo real — muito melhor que qualquer diagnóstico genérico.

2. Levantar a linha de base. Consumo de energia, combustível, água, resíduos e a estrutura de governança que já existe. Quase sempre há mais dado do que se imagina, espalhado em contas e planilhas.

3. Definir dono e cadência. Um responsável nomeado e uma reunião trimestral valem mais que um plano de cinquenta páginas sem nenhum dos dois.

O erro mais comum

O erro que mais vemos não é a empresa que ignora o tema. É a que faz na ordem errada: contrata o relatório antes de ter o dado, publica o compromisso antes de ter o processo, anuncia a meta antes de saber onde está hoje. O resultado é um documento bonito que a primeira auditoria desmonta — e que, por ter sido publicado, agora é um passivo.

A ordem que funciona é a inversa e menos vistosa: levantar, organizar, medir, corrigir e só então comunicar. Dá menos manchete no primeiro ano e sustenta a conversa no terceiro.

A régua mudou de altura e, mais importante, mudou de natureza. Antes media intenção; agora mede evidência. Empresas que entenderam isso cedo não estão gastando mais que as outras — estão gastando na ordem certa.

Onde a sua empresa está nessa régua?

Em uma conversa de diagnóstico, mapeamos o que já te exigem hoje, o que você já tem sem saber e o que falta para responder sem improviso. Sem custo e sem compromisso.

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